quarta-feira, 29 de julho de 2009

Tratamento New Age


CONTO

Certo dia tenho que pesquisar sobre doenças modernas, penso em doenças modernas, o que é uma doença moderna? E se já existia antes mas não tinha diagnóstico? Posso falar em doenças futuras então? Ou tem que ser uma coisa mais de interesse geral? Viagra? Não, isso é tratamento moderno.. Do que é moderno estar doente? É moderno estar doente? É moderno estar doente! Mas é um assunto filosófico demais, vai dar muito trabalho e eu já sei que sou moderna. E doença moderna com tratamento moderno?

Lembro-me de uma matéria publicada há pouco tempo no Estadão sobre como médicos em várias instituições respeitadas de pesquisa no mundo estavam fazendo pesquisas com a ayoasca, o chá de Santo Daime, estudando-o como tratamento para depressão, dependência química e síndrome do pânico, e que um centro avançado de pesquisas em São Paulo* estava envolvido em uma delas, captando voluntários.

Em poucos dias estou com o contato direto de um dos médicos responsáveis, Doutor Manoel Pinto*. Ele quer voluntários, eu estou me voluntariando...

De qualquer jeito, me parece interessante, além do mais, estou ajudando numa pesquisa. Depois de diversos e-mails trocados, ligo para o Doutor Manoel Pinto, ele está na clínica psiquiátrica de Ribeirão Preto, lugar onde é conduzido o estudo, coordenado pelo professor Jairo Ronaldo Haack, do departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento, de uma das faculdades de medicina mais respeitadas do Brasil e do mundo.

- Idade?

- 24

- É bipolar?

- Tenho uma tendência, mas sem a fase maníaca..

- Faz tratamento com lítio?

saudades...

- Não mais..

- Usa algum medicamento?

Hum...

- Welbutrin, zolpidem e, eventualmente, uma ritalina, quando é muito necessário...

-Ritalina? Você é DDA?

Ou Yes babe!

- ãhãm...

-Mas com hiperatividade?

- Não.

-Tem distúrbio de comportamento?

- Esse não..

- Já tomou drogas?

... E foi assim durante muito e muito tempo, o coitado já estava assustado.

Eu só pensava que não devia ter ligado do meu celular.

O Dr. Manoel Pinto me explicou que duas substâncias, a harmina e a dimetiltriptamina (DMT), usadas no tratamento farmacológico da depressão estão presentes na composição química da Ayahuasca. A harmina, por si só, já é um antidepressivo potente, mas leva de 15 a 20 dias para funcionar, o bem-estar imediato é provocado pelo DMT, que causa sensações, a substância bombardeia o cerebro com o neurotransmissor serotonina - e o paciente tem visões e a sensação de bem estar.

Ele conta que o piloto da pesquisa foi feito com duas mulheres, e ambas relataram melhora imediata. Disse que eu ficaria três dias na clínica, tomando as cápsulas, e que é utilizado o método duplo-cego, onde as cápsulas placebo e as ativas estão misturadas e nem eu nem o médico sabemos qual estou tomando. Durante a experiência eu tenho tempo para comer e dormir, mas que fico sobre o efeito da droga a maioria do tempo, respondendo a alguns questionários e sendo observada.

Ele não parava de falar e neste momento eu já pensava nas condições climáticas de Ribeirão Preto para fazer minha mala, querendo jogar meu Welbutrin no lixo e pensando no que fazer com todo o dinheiro que iria economizar com divã.

Provavelmente pagar essa conta de telefone...

Quatorze dias depois, tomadas todas as providências, escuto Creedence Clearwater Revival no meu carro, estou a caminho da minha cura e, de quebra, ainda ganho uma expansãozinha de consciência. Have you ever seen the rain? Só pensava se depois ia começar a freqüentar o UDV ou o Céu de Maria... Pode ser o Natureza Divina, Comuníndios.. E se não fosse tão contra religião provavelmente essa idéia teria vingado.

Esse chá, mistura de um cipó com um arbusto, era utilizado para meditação e contato com o sagrado apenas pelos índios, na Amazônia e no Peru, até Raimundo Irineu Serra resolver peregrinar com uns seringueiros pela floresta amazônica e fazer alguns amigos xamãs por lá.

Mestre Irineu passou oito dias sozinho pela floresta, conversando com a Virgem Maria, e recebeu a tarefa de fundar uma doutrina baseada na bebida, consumida há milhares de anos, com o contexto da cultura e simbolismo Cristão, utilizando ao mesmo tempo a sabedoria da expansão da consciência pela bebida e o cristianismo.

Em 1930, Irineu fundou ’a Doutrina do Santo Daime’ em Rio Branco, no Acre, que foi o primeiro centro onde as pessoas em geral puderam ter acesso a essa bebida. O termo ‘Daime’ provém das palavras "Dai-me Força, Dai-me Luz, Dai-me Amor" (ok...) e exprime que o Daime existe para cada um que pede. A partir daí surgiram diversos grupos religiosos que utilizam o chá.

Com a entrada da bebida nas grandes cidades veio a preocupação do governo acerca do consumo de uma substância alucinógena, com isso a tentativa – falha - de proibição. O assunto causou polêmica e a curiosidade ao seu redor aumentou muito, chamando a atenção também de pesquisadores para os efeitos da substância ativa, o DMT, no cérebro humano.

Ao chegar no hospital pego um folheto, desinteressada, “a depressão atinge cerca de 10% a 12% dos brasileiros”, humm.. pensava que era bem mais... “A incidência em mulheres é duas vezes maior do que em homens”, acho que isso tá errado, deve ser pelo menos umas cinco vezes maior, “segundo a Anvisa, há 130 tipos de antidepressivos”, Ó só..E eu que achava que já tinha experimentado vários. Quem me tira da minha decepção é Lourdes, um enfermeiro simpático, (sim, enfermeiro, no masculino) não é gordo, é largo, tem peito forte e pés e mãos grandes, mas é baixinho, usa óculos grandes que suportam uma potente Varilux.

- Senhora Bandeira?

Aiaiai.. começo a tremer.. Não consigo disfarçar, e se eu tiver uma bad trip? E se eu surtar?

O negocio é bem forte, lembro bem...

Lourdes me acompanha até a sala do Dr. Pinto, ele me diz para ficar calma. “O que de mal pode te acontecer aqui dentro, afinal? Aqui você esta segura!”

Esse nunca tomou droga.

Prossigo com Dr. Pinto, um homem alto, magro, de gestos calmos e fala elegante, até meu quarto, que divido com outras pessoas, não voluntários, mas pessoas que estão lá, na clinica psiquiátrica pública de Ribeirão. Ele me pediu para me preparar e não me assustar com os outros pacientes.

Mas...

Sento, como uma bolacha que me é dado, tomo um suco de laranja. Passam alguns instantes e chegam as cápsulas. Devo engolir seis delas.

Vamo nessa!

Passam alguns instantes e nada! Nada...

Ai!Ai!Ai!Ai! Nada o caralho! Que porra é essa? Tô derretendo..

Abro o olho, não estou derretendo! Me lembro de um filme da década de setenta em que bolas de luz saem do peito dos alienígenas quando eles gozam. Quantos ácidos me deram? Olho para o Lourdes.. Ele nunca tomou drogas! Comeco a rir, riu muito, de repente paro, esqueço-me do que estou rindo.. Ah! Lourdes. Rio mais. Percebo que estou falando isso em voz alta, na cara dele, começo a chorar de pena... Ele se chama Lourdes, coitado. Chego a conclusão que dó é um sentimento pobre e que devo sentir coisas boas pelos outros. Então sinto orgulho! Muito orgulho dele se chamar Lourdes.. Não consigo. Pergunto para ele como é ter esse nome. Ele para de sorrir, não entendo.

Estava sorrindo até agora...

Olho para o Dr. Pinto. Quero um pinto! Quero um pinto! A possibilidade está longe! Estou ficando cada vez mais fora de mim, não controlo mais meus pensamentos. Cores e formas lindas tomam lugar, ouço uma música, tento perguntar o que está tocando, mas até conseguir articular algo já saiu um monte de sons desconexos da minha boca.

Tudo bem, ninguém ouviu.

Espero.

Começo a entrar na cama como numa cena famosa do filme Transppoting, vejo muita luz, meus olhos doem, eu os fecho com as mãos, Pinto me pergunta se está tudo bem, respondo que não sei.

Nem sei se estou, quanto mais se estou bem.

Numa avalanche de imagens que já não controlo, meu cérebro vira um cinema da minha vida, vejo tudo, ate o que não lembrava, penso em filmes..

Tenho a sensação de que estou sendo puxada para fora do meu corpo. De repente tudo parece fazer sentido, tudo fica lindo, choro de tanta beleza e felicidade, olho e tenho certeza de que todos ali já experimentaram aquela sensação..

Menos Lourdes, coitado.

Perco a noção de tempo, espaço e meu corpo, tudo flui. Hora de tomar mais comprimidos. Placebo. Merda!

Trazem-me sanduíche e um bolinho. Como sem muita fome. Hora de descansar, amanhã tem mais.

Acordo bem disposta e sorridente, faço todo um ritual e é hora de mais cápsulas. Engulo a primeira e já sei que é Ayoasca, paro de prestar atenção para não me sugestionar, vinte minutos depois começo a passar mal. Muito mal.

Nesses momentos em que percebo que nunca antes na minha vida tinha estado realmente mal, agora estava. Sensações horrorosas e desconhecidas tomam conta de mim, imagens diabólicas de iogues virando do avesso, chineses voando junto com peixes mortos, minha mãe morta, meu corpo morto. Peço ajuda a alguém do hospital.

- Tô me vendo morta, alguém me ajuda

Ninguém responde.

- Socorro gente, sério, acho que tô morrendo.

Nada, Não há o que fazer...

Penso que isso passa, uma hora passa, tenho que esperar. Mas é hora de tomar a segunda dose e de alguma maneira mágica, ou talvez conhecendo minha sorte, antes de chegar perto já tinha certeza absoluta de que eram de ayoasca. Fudeu!

- Que merda é essa? Vocês querem me matar?! Eu desisto, quero ir embora! Eu quero ir embora!

Aí vem Dr. Pinto me acalmar. Como é que você acalma alguém perguntando aonde ela iria agora, doidona numa cidade desconhecida? Fiquei pensando que talvez para o céu. De repente entendi que estava passando pelo meu inferno, e que tinha que passar por aquilo para subir aos céus. Comecei a me xingar pela herança católica, moralista e hipócrita. Eu sou moralista! Eu sou hipócrita! Somos todos hipócritas! O mundo está perdido! Eu estou me afogando! Não quero morrer cristã!

Era a segunda dose batendo...

Vejo coisas horríveis, em volta de mim, aqueles pacientes doentes, babando, me sinto num filme de terror barato do SBT aos domingos, lembro de todos os meus traumas, choro por mais de dez horas seguidas, sinto angústia, frio, calor, fome, enjôo, vomito mais do que tem dentro de mim, meu corpo tremia e suava, eu não conseguia andar, nem falar, nem sequer mexer a mão, tento pensar em Jesus e aceitar um possível cristianismo, nada! Buda? Blá!

Essas merdas de religiões..

Descubro que não sou só corpo e mente! Penso em física quântica – sou eu quem faço meu estado de humor.... Vejo meu corpo vomitando, me vejo deitada com uma expressão de pavor naquela maca, suja e pálida – eu, não a cama. Vi-me ali embaixo, deitada, ali, de cima...

No dia seguinte ainda acordo chorando, paralisada, não quero esse último dia, quero ir embora dali, traumatizada. Estou mal, apática, aterrorizada, num estado catatônico. Vem a equipe técnica - três psiquiatras juntos - e, claro, me convenceram a tomar as últimas duas doses, no dia seguinte iria embora pela manhã.

Primeira dose. Placebo.

Aleluia!

A segunda vai ser também!

Que nada! Vem que vem! Outro Tsunami!

Mas espera, é gostoso, igual no primeiro dia, bem mais forte, mas gostoso! Ih! Não consigo mais controlar.. Para onde estou indo?

De repente eu plano num universo inexplicável.

Algum tipo de lugar divino, um mundo totalmente novo, tudo faz eu me sentir cada vez melhor e tudo é cada vez mais estranho, é a física quântica em ação. Estava na toca do coelho da Alice, era tudo inexplicável, impensável, imensurável, quase irreal, se não fosse TÃO real. Acho que nunca me senti tão viva. Nem tão feliz. Por alguns momentos entendo minha relação com o mundo, tudo através de mim mesma. É estranho, não queria admitir... Admitir que possa ter um sagrado. É sagrado! Entendi agora! Entendi tudo! É Sagrado, tudo é sagrado! Sem dogma ou filosofia, simplesmente sagrado!

E nessa paz suprema vou me levando, o efeito vai passando, mas eu estou concentrada demais, relaxada demais para responder à qualquer pergunta ou sequer abrir os olhos. Ignoro a todos, vou ao banheiro, sem abrir os olhos, volto, me deito para dormir. Não como nada, estou na estranha companhia de mim mesma e do meu corpo, que nesse momento é parte tão pequena de mim, serve apenas para me expressar nesse mundo material e materialista.

Durmo como não dormia há 23 anos (no meu primeiro ano de vida devo ter dormido bem, gosto de acreditar), acordo muito bem disposta, me sentindo uma das pessoas mais felizes do mundo, tenho muita energia, mas estou calma, quase chapada, acabei de descobrir a mim mesma. Havia agüentado mais do que pensei ser capaz e conseguido atingir o outro extremo, o do paraíso, o do meu nirvana particular.

Mas vou ter que gastar muito dinheiro ainda com discussões no divã. Preciso descobrir se alucinei como nunca ou se tudo aquilo foi real. Eu acho que foi real.

Mas realidade é relativo.


*O nome da instituição e dos médicos responsáveis foram mudados a pedido dos mesmos para preservar a integridade do estudo.

Um comentário:

  1. Dizem que a Ayahuasca é isso. É você de cara com você mesmo. Um encontro com todos os teus "podres", pra que tu possas conhecê-los e enfrentá-los.
    Se um dia tiver coragem de me enfrentar, tomo o chá.

    O problema vai ser essa coisa da realidade, mesmo.

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